Agradeço ao varal, a este movimento dos panos.
O lençol, a fronha, a toalha, as cuecas, calcinhas e
camisetas.
Esse vento que me trouxe e me leva ao quintal baiano na casa
de minha mãe.
Eu era criança e só queria comer no mato de baixo das arvores,
sentado no chão como bicho.
Queria ser passarinho, e a minha mãe afagava, fingia que não
entendia, e pacientemente ia me acalmando, e eu continuei querendo ser
passarinho.
Aqui no quintal paulistano, as coisas se repetem.
O varal, o pé de pau e os passarinhos.
Passo horas a
observar suas danças, bater de asas perfeitos como uma dança.
E eu pisando milho, indo a feira pegar frutas, já sou quase
um passarinho.
Nós somos frutos do meio , e hoje ganhei um presente do
abacateiro do parque da Previdência.
E a Lili descendo o carreiro, abraçou uma árvore
belíssima, aqui tudo acontece, quintal paulistano.

Cipriano Souza
Intensidades
A palavra intensidade parece apontar ótimos
caminhos para mergulhar numa interpretação do trabalho visual de Cipriano
Souza. Sua obra tem na cor uma característica primordial, mas ela não se esgota
em si mesma como recurso plástico. A forma de dividir as áreas da
pintura, por exemplo, indica para um entendimento próprio do sentido da arte.
Criar, para o artista baiano, é visceral. Não se
trata de mais uma atividade humana, mas sim daquela mobilização primeira,
inata, que o leva a construir narrativas continuamente, seja pelas imagens,
seja pelas palavras em sua conversa encantadora. Cipriano surge como um contador
de histórias em que não há fronteiras entre o real e o imaginado.
O impulso que o motiva é de manter a mente em
andamento. Provavelmente isso o leva a estar sempre disposto a oferecer ao
público novas dimensões de sua própria obra, num processo de busca constante.
Pequenos desenhos ou telas de maiores proporções estão nessa mesma dinâmica de
não estagnar como pessoa e como artista.
A intensidade do universo de Cipriano Souza se dá
num permanente sentir o mundo e devolvê-lo pelas tintas ao nosso olhar. Trata-se
de um exercício habitual de combate a qualquer tipo de acomodação. O pensar e o
fazer são os pilares de uma existência ergue estruturas visuais densas e
alegres.
Oscar D’Ambrosio integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É doutor em Educação, Arte e História
da Cultura pela Universidade Mackenzie e mestre em Artes pelo Instituto de
Artes da Unesp.


